Artigo do Cônego Dr. Manuel Quitério - É mais fácil dizer a verdade ou escutá-la? Uma reflexão Sábado, 18 Agosto 2018

Artigo do Cônego Dr. Manuel Quitério - É mais fácil dizer a verdade ou escutá-la? Uma reflexão

É mais fácil dizer a verdade ou escutá-la? Uma reflexão

“Nunca saberemos avaliar os ouvidos que nos ouvem”

(Côn. Manuel)

Sempre que um assunto aparece na mídia, em família ou na sociedade, gostamos de nos manifestar, opinar e argumentar. Isto faz parte do ser humano, não só como pessoa, mas, sobretudo, como cidadão dentro dos seus deveres e obrigações. Daqui que tenho refletido muito sobre o texto bíblico entre o diálogo de Jesus com Pilatos: “O que é a verdade?” (Jo 18, 33- 38). Jesus sabia quem Ele era. Pilatos nem tanto. Naquele tempo todos opinavam sobre Jesus, mas poucos sabiam quem Ele era de fato. Tenho receio de corrermos esse risco hoje. Muitas vezes gostamos de dizer a ‘verdade’, mas será que estamos aptos para ouvi-la. Nossos argumentos, como daqueles do tempo de Jesus, são abastecidos de nutrientes apetitivos. Enchemos-nos do acho que; penso assim; minha opinião é essa. Assim, nos colocamos diante de tudo o que é assunto. Contudo, quando nos toca a ouvir, será que estamos idôneos. Será que temos as proteínas necessárias e todo o cálcio preciso para nos manter de pé frente a uma verdade. No texto bíblico Jesus dá a resposta a Pilatos. Assim diz o texto: “De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37). Pilatos, por sua vez, questionou sobre a verdade e o entregou aos judeus (Jo 18, 38-40). Pilatos quis dizer a verdade, mas não a quis ouvir. Por isso, quem se habilita a dizer a verdade também deve ser seu ouvinte. A verdade dói. Só quem conhece o mapa da consciência sabe o quanto tem valor uma verdade. Não no sentido de ser dono dela, mas de fazê-la “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6), e se sentir gente diante do que fala. Já nos diz Winston Churchill: “A verdade é inconvertível, a malícia pode atacá-la, a ignorância pode zombar dela, mas no fim; lá está ela”.

Um outro texto bíblico que me chama a atenção e motiva minhas reflexões é o de João 8: “Então, disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se permanecerdes na minha Palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Eles responderam-lhe: Somos da descendência de Abraão e jamais fomos escravos de ninguém. Como podes tu afirmar que seremos libertos?” (Jo 8, 31-33). A verdade incomoda. Ela chama atenção em toda a sua organização e da forma como é dita. Falar é fácil. Organizar a metodologia da fala talvez peça um pouco mais de nós. Veja o que diz Ivan Panin: “Para toda verdade há um ouvido em algum lugar para ouvi-la”. Nunca sabemos quem nos vê e quem nos ouve. Aqui está que nosso falar deve respeitar e obedecer aos parâmetros da prudência. Quem fala de cabeça quente ou nervoso atropela o caráter, se envolve com os sentimentos e pode não encontrar a consciência. A verdade é como a mata atlântica, quem não a conhece pode se perder e, para se achar, precisa fazer um longo caminho de volta. Veja como se expressa Joseph Sugarman: “Cada vez que você é honesto e conduz a si próprio com honestidade, uma força de prosperidade impulsionará você em direção a um grande sucesso. Cada vez que você mente, mesmo uma mentira inofensiva, existe forças empurrando você em direção ao fracasso”. É bom ver o por dentro da palavra. O que mata um rato não é um quilo de veneno, mas um grama. A verdade pode não ter grandes espaços, mas enche o coração de quem a diz e, certamente, de quem a escuta. A mentira pode nos facilitar ou ajudar a sair de uma situação, mas sua validade fracassa quando se encontra com a verdade.

Mesmo que a verdade seja uma cruz, sempre nos levará a ressuscitar. Veja o que diz o Mestre Khane: “Não procures a verdade fora de ti, ela está em você”. Não te habilites a confundir a verdade com os requintes festivos da mentira. A verdade pode ser uma simples faísca, mas alcança a mais alta combustão do calor e da luz. Quem diz a verdade, apresenta os “documentos” oficiais apresentados e assinados pela consciência. Quem a escuta jamais coloca em questão sua autoridade. A história a seguir, tirada de um dos meios de comunicação pode nos ajudar a afirmar que, quem diz a verdade, também tenha a humildade de ouvi-la: “Uma senhora tinha um cachorro que lhe era extremamente fiel. Sua confiança no animal oferecia condições deste “cuidar” do seu bebê enquanto ela saía para cuidar de outros assuntos. Ela sempre voltava e via criança dormindo profundamente com o cachorro fiel cuidando. Um dia algo aconteceu. A mulher, como de costume, deixou o bebê nas "mãos" do animal fiel e foi às compras. Quando voltou, ela descobriu uma cena bastante desagradável. O berço do bebê foi desmantelado, suas fraldas e roupas rasgadas com manchas de sangue por todo o quarto onde ela deixou a criança e o cachorro. Chocada, a mulher perdeu o chão. De repente, ela viu o animal fiel saindo de debaixo da cama. Ele estava coberto de sangue e lambendo sua boca, como se tivesse acabado de uma refeição deliciosa. A mulher ficou com raiva e concluiu que o cachorro tinha devorado o bebê. Sem pensar muito, ela bateu no cachorro com um pedaço de pau e o matou. Mas, como ela continuou procurando os "restos" de seu filho, ela viu uma outra cena. Perto da cama estava o bebê que, apesar de estar no chão, estava a salvo e sob a cama uma serpente em pedaços. Foi uma batalha feroz entre a cobra e o cachorro, que agora estava morto. Então a realidade veio à mulher, que entendeu o que aconteceu na sua ausência. O cachorro lutou para proteger o bebê da cobra faminta. Era tarde demais para ela agora fazer as pazes, porque na sua impaciência e raiva, matou o fiel animal. Quantas vezes julgamos mal as pessoas e as rasgamos em pedaços com palavras duras e ações antes de ter tido tempo para avaliar a situação? É o pecado da presunção. Presumindo as coisas da nossa maneira, sem se dar ao trabalho de descobrir, exatamente, qual a real situação. Um pouco de paciência pode reduzir muitos erros ao longo da vida. Quem somos nós para julgar os outros? Não pense que você sabe o que os outros estão pensando. Tire um tempo para ter a verdade, antes de julgar. Pense nisso.  

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Prof.º do Seminário de Diamantina e da PUC-MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina - (ALAD).

Membro da Academia Marial – SP

 

 

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